domingo, 27 de abril de 2008

Onde foi que eu errei?


Hoje, eu tive que lidar com uma coisa muito maior do que eu, uma coisa muito maior do que você, uma coisa muito maior que todo mundo: tive que lidar com um atentado a vida.

Uma amiga minha simplesmente apareceu com o pulso cortado dizendo que tentou se matar.
Falando assim, parece simples, mas não é. E isso me fez pensar sobre uma questão que eu nunca pensei antes na minha vida: afinal, o que é o amor à vida?

Pra mim, a minha visão de amor à vida sempre foi uma coisa bem simples, fácil e de rápido entendimento: nunca, sob hipótese alguma, tentar me matar. Mas a minha opinião foi posta em xeque.
Será que o amor à vida é isso mesmo?

Depois de ter me falado a história, ela me explicou melhor como tudo aconteceu. Ela estava lá, sem fazer nada e talz, quando de repente, um “amigo” dela foi e soltou a frase: eu duvido que você tenha coragem de cortar os pulsos.

Maldita frase...
Ela foi, mostrou o pulso pra ele e falou: corta.
E o resto você já deve imaginar.

Na hora que eu soube (dia seguinte), eu quase dei uma surra nela. E depois quase “morri de chorar”. Foi a primeira vez em que eu me vi confrontada com o meu maior medo, o meu maior receio, e o meu maior temor: a morte de alguém próximo de mim, a morte de alguém que eu amo.

E pensei também: como o que pra mim é tão importante e incondicional pode ser tão desprezível pra outra pessoa?

Mas essa é só a ponta do iceberg.
Por traz de um suicida em potencial, existe a família de um suicida em potencial, a sociedade de um suicida em potencial e a cultura de um suicida em potencial.

E é agora que eu entro nessa história...
Porque a sociedade em que ela vive, é a minha sociedade!

A sociedade em que ela vive também sou eu! Eu faço parte dessa sociedade! Eu faço parte disso.
E depois disso, eu passei a pensar: quantos outros suicidas em potencial eu tenho na minha sociedade?

No Brasil como um todo, o suicídio não é conversado, não é pauta de debates, não é discussão entre as pessoas, não é discutido sobre isso, as pessoas não SABEM sobre suicídio e o que ele gera em uma família.

Resumo: o suicídio no Brasil é negligenciado. Na verdade mesmo, as pessoas evitam falar de suicídio, seja por motivos religiosos ou culturais mesmo (a maioria).

E depois que eu parei pra pensar nisso, eu olhei o lado dela, e me arrependi puramente de tê-la xingado até a alma, de tê-la mandado pra todos os lugares possíveis e imaginários e mais um pouco...

Eu devia ter olhado o lado dela...
Afinal, se ela realmente não tivesse motivos pra se matar, iria chamar o ”amigo” dela de louco e jamais aceitaria isso. Ou seja, boa é que a vida dele não está.
Está mais do que na hora de revermos os nossos conceitos, de começarmos a realmente falar sobre o suicídio mais abertamente.

A chave para acabarmos com os suicídios (tá, sejamos realistas, para diminuirmos os suicídios), é a aceitação da existência do problema por toda a sociedade, pra depois vir o combate.
E qual seria o combate? O esclarecimento, os debates, as conversas sobre o assunto.
Afinal, eu não quero ter amigas minhas morrendo por cortar os pulsos. E você?

(Texto de Isabelle Bastos)

9 opiniões alheias:

Unknown disse...

primeeiro comentário desse post :D
realmente, um texto que nos faz pensar!
boaa sorte Bell :*

Bell Bastos disse...

Obrigada Mari!

Bell Bastos disse...

Esse comentário foi mandado por msn, e vale a pena postar.

Doutora Simone
Isabelle , com pouca idade você vem aqui questionar este assunto tão importante.Assusta saber que a ação de tirar a própria vida tem sido adotada por pessoas cada vez mais jovens. É sabido que os índices de suicídios vêm crescendo rapidamente no mundo todo, temos sim que falar abertamente a esse respeito.O "por quê" do seu questionamento infelizmente vai ficar sem resposta,...
na realidade existem várias vertentes de pensamento sobre a causa deste comportamento, no entanto nenhuma que o explique completamente.Diante disso é importante que você como amiga ,estimule as atitudes positivas mostrando a ela de forma clara que ela tem capacidade de resolver seus problemas, e que esse sofrimento vai passar ,mas se esses sentimentos melancólicos continuarem é preciso...
procurar ajuda de um bom profissional, sem preconceito.
Menina, parabéns pelo assunto que resolveu abordar.

Unknown disse...

Bell
Eh, um assunto um tanto qnto intrigante.
Confeso que ja pasei por situascoes parecidas...
Sei como eh difil e sei que podemos dar a volta por cma...
gostei muuuito do post
bjus

Bell Bastos disse...

Obrigada Bruno.
Na verdade, esse é um assunto que deveria ser mais discutido e mais comentado pelas pessoas...
Devemos também prestar mais atenção nas pessoas qeu são próximas de nós, já que eu só fui perceber que ela era uma suicida em potencial depois que ela realmente tentou o suicídio...
Fica aí a dica.

Unknown disse...

Bell...

vc sabe amada o tanto que eu gosto das coisas que voce escreve..
Achei que vc foi super justa nesse post..
Pq afinal tds nós estamos sujeitos a errar e essa é a nossa realidade..
De verdade adorei

Bell Bastos disse...

Pois é.
Na verdade, o que eu mais quero com esse post, é que as pessoas parem, pensem, e reparem mais nas pessoas que vivem ao seu lado...

Unknown disse...

muito bom o texto e um assunto muito complexo!

mas eu discordo de algumas coisas. não acredito que o assunto vá ser resolvido com debates, com discussão. o suicídio é, antes de tudo, uma questão pessoal! óbvio que existe um cenário social por trás do assunto. o suicídio é consequência de um mundo fragmentado, conturbado. mas também é consequencia da interpretação pessoal de cada um. sempre haverá gente insatisfeita com a própria vida, mesmo que ela seja "perfeita". a raiz do problema não é o suicídio, mas como fomos criados, como aprendemos a amar nossa vida.

não sei se falei algo com nexo, mas é o meu ponto de vista

belo blog! parabéns!

bjs

Bell Bastos disse...

Obrigada pelo elogio.
E mais obrigada ainda por você ter expresso a sua opinião.
Afinal, era isso o que eu queria que as pessoas comentassem, não só o que elas concordam, mas também o que não concordam.

:D